Fotografia alternativa não é só fazer um daguerreótipo ou uma impressão usando goma. A palavra “alternativa” carrega o micróbio da curiosidade para saber se alguma coisa, fora do padrão estabelecido, pode funcionar.
Quando fiz a postagem “Testando… 1… 2… 3… “  disse que se a “fórmula secreta” funcionasse iria aparecer aqui. Então, lá vai.

Da Goma dicromatada, peguei o dicromato , mas substituí a goma por cola PVA misturada com água. Do papel salgado peguei o nitrato de prata e o fixador, mas o fixador foi diluído em água. Ou seja, tudo para não dar certo. Porém…

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Quando imaginei juntar o nitrato de prata com o dicromato de amônia para obter cromato ou dicromato (?) de prata, perguntei a um químico como seria a equação dessa mistura e ele me disse que não seria nada pois os dois compostos não reagiriam um com o outro, e me deu toda a explicação do porquê. Explicação entendida e pronto não vai funcionar. Mas como nos primeiros testes alguma imagem se formou, então…

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Após vários ajustes a fómula final é a seguinte:

Cola PVA: meia colher de sopa diluída em 40ml de água

Nitrato de prata: 15 ml a 10%

Dicromato de amônia: 2 ml  (foi usado o dicromato comercial para serigrafia)
Uma vez misturados os componentes acima formam uma solução não muito homogênea com muita coisa em suspensão que deve ser agitada antes de ser aplicada sobre o papel.

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Os tempos de exposição são relativamente longos, mesmo com índices extremos de UV.

Tempos de exposição: Da esquerda para a direita. 15, 20, 25 e 30 minutos

Tempos de exposição: Da esquerda para a direita. 15, 20, 25 e 30 minutos.

A fixação foi feita em um banho de água mais fixador (50%:50%). Isso foi feito por conta de que nos primeiros testes, a forma tradicional de “revelação” do processo de goma não surtiu qualquer efeito sobre a cola PVA. Com a adição do fixador no banho foi notado que ao mesmo tempo que se fixava a imagem a mancha do dicromato simplesmente sumia sem deixar qualquer vestígio no líquido. Depois de cinco minutos nessa solução fixadora, outro banho de 10 minutos em água.

Outros dados: Exposição feita a céu aberto, sem nuvens. Índice UV: extremo. Negativo de papel encerado. Papel de suporte: Verge 180g ( manuseado com grande cuidado depois de encharcado.)

Apesar de ter consegui do uma imagem bem formada e estável, resta uma pergunta para a qual não tenho qualquer resposta, ainda: Se o nitrato e o dicromato não reagem entre si, o que acontece para que se consiga essas imagens? Alguma reação com o PVA? UV?. Quem conseguir uma explicação, por favor me avise.

 

A quantidade perguntas recebidas quanto ao uso de água destilada para a preparação das soluções usadas nos processos fotográficos alternativos, já justifica uma postagem específica sobre o assunto.
A maioria dos manuais do século XIX ao descreverem esse ou aquele processo sempre fazem menção que as soluções fotossensíveis devem ser preparadas com água destilada. Essa recomendação ainda hoje é reproduzida por vários praticantes da fotografia alternativa como se fosse um ponto fundamental para o sucesso de uma impressão.
Do ponto de vista puramente químico a utilização de água destilada tem sentido por conta da necessidade de resultados precisos em qualquer reação, porém para a fotografia a presença de uma parte por bilhão de outro elemento qualquer em uma solução de nitrato de prata não tem qualquer impacto na qualidade final de uma impressão em papel salgado, ou van dyke, ou qualquer outro processo.
Vale notar que na época de publicação dos manuais mencionados anteriormente a qualidade da água, especialmente nas grandes cidades, não chegava, nem de longe, ao que hoje temos em termos de salubridade e limpidez. ( Antes que alguém levante alguma objeção: Estou falando de locais onde existe tratamento regular das águas servidas à população e não daquelas águas vindas de cacimbas barrentas.)

Portanto, o uso de água destilada para a preparação das soluções é somente uma filigrana e não tem qualquer impacto perceptível na qualidade final da imagem.

São João del Rei, MG. 2008

Cianotipia.  São João del Rei, MG. 2008

A fotografia alternativa não se resume tão somente aos processos históricos. O arsenal de conhecimentos sobre fotografia, oficialmente acumulado desde 1826, torna possível imaginar novas formas, fórmulas e processos para a produção de uma imagem fotográfica.
É verdade que em grande parte das tentativas, aquela “idéia genial” não funciona tão bem quanto esperado. Na verdade tudo conspira contra. A química pode não ser adequada ou a fórmula não ter sido corretamente calculada em seus pesos e volumes. Encontrar o tempo médio para uma boa exposição é mais tentativa e erro do que qualquer outra coisa. Não se consegue permanência. A lista de variáveis é grande.
Abaixo, alguns testes feitos com uma nova “fórmula secreta”. Já com algumas variações nos tempos de exposição, concentração dos químicos e alteração no número de camadas de emulsão.  Sempre com o mesmo negativo de papel encerado. Por enquanto é só uma experiência por conta de uma idéia.  Se funcionar, vai aparecer aqui com todos os dados

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No último post falei em curiosidade. Essa curiosidade vale tanto só para saber com qual o caminho percorrido até o sensor do seu smart, quanto pode, também, atiçar a vontade de ir um pouco além.
A série ” The Photographic Processes Series “, da George Eastman House, mostra em pequenos segmentos uma rápida história da fotografia desde seu início até a criação da captura digital.Vale a pena assistir, nem que seja um segmento por dia.

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No fim de semana passado, dias 19 e 20, aconteceu mais uma oficina do ciclo de oficinas, organizado pelo Lab Clube, no Rio da Janeiro. Dessa vez, tive a oportunidade de mostrar como fazer papel fotográfico tradicional de forma artesanal para um grupo atento e interessado e, melhor de tudo, curioso.
Não adianta aprender se não se tem curiosidade. O simples saber sem o “e se” não produz nada novo. Saber como fazer e não tentar ultrapassar um limite, mesmo que seja só para saber que alguma idéia não funciona, não vale a pena.

Alguns dos primeiros trabalhos dessa turma de curiosos.

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