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Cola PVA + Solução tradicional para cianotipia + gelatina.
Em 2017, mostro como é.

Feliz Natal!

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Muita gente, inclusive eu, fala sobre a fotografia alternativa como uma forma de preservação de conhecimento, ou de reflexão sobre a evolução da fotografia ou instrumento para exprimir alguma criatividade. Tem também a turma apaixonada somente pelo(s) processo(s) em si e pela química envolvida. A fotografia alternativa traz cada uma dessas facetas juntas em uma só coisa que não se tem como se dividir, sem que se perca o essencial que é fazer fotografia. Mas existe mais um componente nessa equação que não é exclusivo da fotografia feita de qualquer forma não convencional: O tempo.
Quem quiser estudar, pesquisar e, no fim de tudo, fazer fotografia alternativa, ou, para todos os efeitos, qualquer atividade que exija atenção e qualidade, tem que passar a encarar o tempo de outra maneira. Tem que saber  que os segundos não tem qualquer importância se o trabalho exige minutos, muitos minutos. E ainda assim, esses muitos minutos podem acabar por se transformar em horas ou até mesmo dias.

Negativos de papel "encerado". Depois de uma segunda aplicação de óleo mineral , mais três dias até poder usá-los sem manchar o papel.

Negativos de papel “encerado”. Depois de uma segunda aplicação de óleo mineral , mais três dias até poder usá-los sem manchar o papel.

Por favor, não pensem que defendo um retorno à charrete ou ao código Morse. Os negativos que uso para fazer minhas impressões começam em um arquivo digital e são cuspidos em poucos segundos por uma impressora, porém é neste ponto em que a rapidez dos segundos deixa de fazer sentido e o tempo passa a fluir em outro ritmo. Não se desespere pensando estar perdendo tempo enquanto espera um papel secar e nem por ter que lavar uma impressão por meia hora. Baixe o giro. Finja que é surdo quando ouvir aquela porra de assobio que exige resposta imediata, ou, pelo menos pense um pouco na resposta antes de soltar a cavalaria dos dedos. Aproveite esse tempo para ficar um pouco fora da correria. Além de ainda não pagar imposto, talvez você até consiga  (vi)ver a vida com outros olhos.

Chovendo no molhado para, mais uma vez, dizer aos que pensam em se aventurar na fotografia alternativa que pesquisar sempre é fundamental.
No site  Graphics Atlas, todas as características de cada processo de impressão, da pré-fotografia ao laser, e como identificar cada um. É bem completo e merece várias visitas.

Corte de uma impressão em papel salgado mostrando o aspecto físico da formação da imagem.

Corte de um papel salgado mostrando o aspecto físico da formação da imagem.

Fotografia alternativa não é só fazer um daguerreótipo ou uma impressão usando goma. A palavra “alternativa” carrega o micróbio da curiosidade para saber se alguma coisa, fora do padrão estabelecido, pode funcionar.
Quando fiz a postagem “Testando… 1… 2… 3… “  disse que se a “fórmula secreta” funcionasse iria aparecer aqui. Então, lá vai.

Da Goma dicromatada, peguei o dicromato , mas substituí a goma por cola PVA misturada com água. Do papel salgado peguei o nitrato de prata e o fixador, mas o fixador foi diluído em água. Ou seja, tudo para não dar certo. Porém…

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Quando imaginei juntar o nitrato de prata com o dicromato de amônia para obter cromato ou dicromato (?) de prata, perguntei a um químico como seria a equação dessa mistura e ele me disse que não seria nada pois os dois compostos não reagiriam um com o outro, e me deu toda a explicação do porquê. Explicação entendida e pronto não vai funcionar. Mas como nos primeiros testes alguma imagem se formou, então…

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Após vários ajustes a fómula final é a seguinte:

Cola PVA: meia colher de sopa diluída em 40ml de água

Nitrato de prata: 15 ml a 10%

Dicromato de amônia: 2 ml  (foi usado o dicromato comercial para serigrafia)
Uma vez misturados os componentes acima formam uma solução não muito homogênea com muita coisa em suspensão que deve ser agitada antes de ser aplicada sobre o papel.

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Os tempos de exposição são relativamente longos, mesmo com índices extremos de UV.

Tempos de exposição: Da esquerda para a direita. 15, 20, 25 e 30 minutos

Tempos de exposição: Da esquerda para a direita. 15, 20, 25 e 30 minutos.

A fixação foi feita em um banho de água mais fixador (50%:50%). Isso foi feito por conta de que nos primeiros testes, a forma tradicional de “revelação” do processo de goma não surtiu qualquer efeito sobre a cola PVA. Com a adição do fixador no banho foi notado que ao mesmo tempo que se fixava a imagem a mancha do dicromato simplesmente sumia sem deixar qualquer vestígio no líquido. Depois de cinco minutos nessa solução fixadora, outro banho de 10 minutos em água.

Outros dados: Exposição feita a céu aberto, sem nuvens. Índice UV: extremo. Negativo de papel encerado. Papel de suporte: Verge 180g ( manuseado com grande cuidado depois de encharcado.)

Apesar de ter consegui do uma imagem bem formada e estável, resta uma pergunta para a qual não tenho qualquer resposta, ainda: Se o nitrato e o dicromato não reagem entre si, o que acontece para que se consiga essas imagens? Alguma reação com o PVA? UV?. Quem conseguir uma explicação, por favor me avise.

 

A quantidade perguntas recebidas quanto ao uso de água destilada para a preparação das soluções usadas nos processos fotográficos alternativos, já justifica uma postagem específica sobre o assunto.
A maioria dos manuais do século XIX ao descreverem esse ou aquele processo sempre fazem menção que as soluções fotossensíveis devem ser preparadas com água destilada. Essa recomendação ainda hoje é reproduzida por vários praticantes da fotografia alternativa como se fosse um ponto fundamental para o sucesso de uma impressão.
Do ponto de vista puramente químico a utilização de água destilada tem sentido por conta da necessidade de resultados precisos em qualquer reação, porém para a fotografia a presença de uma parte por bilhão de outro elemento qualquer em uma solução de nitrato de prata não tem qualquer impacto na qualidade final de uma impressão em papel salgado, ou van dyke, ou qualquer outro processo.
Vale notar que na época de publicação dos manuais mencionados anteriormente a qualidade da água, especialmente nas grandes cidades, não chegava, nem de longe, ao que hoje temos em termos de salubridade e limpidez. ( Antes que alguém levante alguma objeção: Estou falando de locais onde existe tratamento regular das águas servidas à população e não daquelas águas vindas de cacimbas barrentas.)

Portanto, o uso de água destilada para a preparação das soluções é somente uma filigrana e não tem qualquer impacto perceptível na qualidade final da imagem.

São João del Rei, MG. 2008

Cianotipia.  São João del Rei, MG. 2008