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Quando da postagem sobre a preparação do soro, mencionei o uso do whey em pó como alternativa mais prática a todo o processo envolvendo o leite.
Porém, ao usar whey em pó, comprado em uma dessas lojas que vendem temperos a granel, tive uma surpresa nem um pouco boa.
Após pesar o whey, chacoalhar bastante e filtrar duas vezes o líquido, preparei duas folhas de Cason Aquarela. Secagem, ok. Aplicação da solução de nitrato de prata com uma gota de tintura de iodo, ok. Nova secagem, no escuro, ok.
No dia seguinte, desastre. Os dois papéis já estavam velados com uma cor marrom alaranjado em toda a área da aplicação da solução de nitrato. (Palavrões, murmurados em voz baixa.) Deve ser alguma coisa com o papel.
Novo teste. Dessa vez com um Hahnemühle 300g. Mesmo resultado. (Mais palavrões.)
A solução de nitrato foi preparada da mesma forma que deu resultado positivo. Papéis de dois fabricantes mostraram a mesma reação, portanto pouco provável ser culpa do papel.

Ficha caindo! Só pode ser o whey.

(Aqui um parênteses para os jurássicos que brincaram com o Laboratório Químico Juvenil. Alguém lembra da experiência para saber se havia amido em alguma coisa? Pingar uma gota de iodo sobre uma fatia de batata? Pois é.)

Na satisfação de ter encontrado o whey em pó tão facilmente, não prestei a atenção devida ao que estava escrito na etiqueta. Dizia: Whey 80%. Porém, sem dizer o que seriam os 20% restantes. Feito o teste com o iodo e bingo. Amido!

Assim, enquanto não encontrar whey em pó 100%, fico com o leite e ainda ganho uma pastinha para passar no pão ao final do processo todo.

Pedaço do Canson Aquarela e whey com a adição de uma gota de tintura de iodo.

Em 1855, Thomas Sutton, publicou uma brochura com um título bem ao gosto dos pioneiros da fotografia do século XIX. “A NEW METHOD OF PRINTING POSITIVE PHOTOGRAPHS BY WHICH PERMANENT AND ARTISTIC RESULTS MAY BE UNIFORMLY OBTAINED.”, que traduzido é: “ UM NOVO MÉTODO PARA IMPRESSÃO DE FOTOGRAFIAS POSITIVAS PELO QUAL RESULTADOS PERMANENTES E ARTÍSTICOS PODEM SER UNIFORMEMENTE OBTIDOS.”

Pela época de sua publicação, poderia ser somente mais uma das inúmeras variações para impressões feitas em papel salgado se não fosse uma diferença fundamental. Ao contrário de todos os outros processos que dependem da formação de um haleto de prata qualquer, o processo proposto por Sutton dispensa o uso de qualquer tipo de sal, ou seja não são usados cloretos, iodetos ou brometos para a formação do haleto fotossensível.
O elemento orgânico usado no  papel é o soro de leite, sensibilizado com uma solução fraca de nitrato de prata e ácido acético glacial. A imagem que se forma, ao contrário dos outros “processos salgados”, não depende do ultra violeta e é parcialmente latente tendo que ser revelada com uma solução saturada de ácido gálico.
Também é interessante notar que Sutton, ao contrário de muitos outros, não deixou de aprimorar seu processo, no ano seguinte, apresentou algumas alterações ao mesmo no seu PHOTOGRAPHIC NOTES, publicado por ele mesmo.

NA PRÓXIMA POSTAGEM, O PROCESSO.

Em 2006 comecei a pesquisar o que era essa tal de fotografia alternativa. Na época, somente um punhado de pessoas sabia do que se tratava, e um número menor ainda se aventurava em fazer alguma coisa.
Passados 12 anos o panorama mudou bastante. Agora existem grupos mais ou menos organizados que se dedicam a divulgar os processos históricos. Pessoas que entendem que esses conhecimentos não devem ser esquecidos e que realmente têm um trabalho sério, e  outras que “estão na onda”, mas que logo migrarão para o novo “trend” (odeio essa palavra).
A quantidade de interessados cresceu e a oferta de cursos e oficinas, também (Adam Smith é implacável). Porém há que se ter  cuidado para não jogar dinheiro pela janela. Se você quer aprender a primeira coisa é saber quem vai te orientar. Tem história? Mostra o que faz? Estuda? Dá suporte depois?

2006. Meu primeiro papel salgado bem sucedido. (Ainda com as marcações do fotolito)

Em 28/08/2010,  publiquei um post com o título  Papel Fotográfico Caseiro onde se mostrava como fazer uma emulsão simples de gelatina de prata (cloreto) para fazer papeis fotográficos pb.
A “receita” e o processo eram, e são, bem simples. Porém com muito espaço para experimentação e aperfeiçoamento.
Diferentemente dos produtos industriais onde a padronização é a regra imposta por conta dos custos de produção envolvidos, fazer um papel fotográfico de forma artesanal permite um grande número de variações, podendo cada praticante chegar até a ter a sua fórmula e processo pessoal.
Assim, segue outra formulação e suas etapas de elaboração.

Dissolver 6 g de gelatina em 90ml de água.

(A gelatina utilizada não foi aquela normalmente encontrada no comércio em sachets individuais. É mais fina e foi adquirida a granel em loja de temperos, condimentos, etc..)

Adicionar 2 g de cloreto de sódio e quando totalmente dissolvido, adicionar 1 ml de uma solução a 2% de iodeto de potássio.

COM LUZ DE SEGURANÇA, adicionar 10 ml de solução composta 10 ml de nitrato de prata a 15% e 2 g de ácido cítrico.

(A presença do iodeto torna a emulsão mais sensível, portanto a luz de segurança é realmente necessária.)

Banho-Maria por 30 minutos a uma temperatura entre 60 e 65ºC.

(A temperatura e o tempo são maiores do que aqueles indicados na primeira postagem. Isso, além de acelerar a formação dos haletos de prata aumentará sua sensibilidade à luz.)

Gelatina de prata – cloro/ iodeto

De repente alguém vem e pergunta:

– Encontrei esse bloco no fundo de uma caixa. Te interessa?

Mais de 90 folhas 23,5 x 31 cm. Gramatura 200g. Textura fina e tonalidade creme bem claro. Fabricante desconhecido, mas de excelente qualidade. As marcas da passagem do tempo se limitam às bordas e nada mais.
Minha resposta é óbvia.
Agora é decidir qual o melhor tema e processo para aproveitar esse presente.

A propósito. A Via Calzaiuoli continua em Florença,  já Galotti e Parenti não se sabe mais deles.

 

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