OLHANDO PARA O PASSADO

         No Brasil, poucos fotógrafos já ouviram falar em cianotipia, em papel salgado, marrom Van Dyke, goma bicromatada, papel albuminado, colódio úmido ou outros tantos processos fotográficos criados e praticados ao longo dos primeiros cinqüenta anos de existência da fotografia ainda no século XIX.

Explicações para isso são muitas e todas se entrelaçam em um nível ou outro, mas creio que a principal seja o fato de sermos ávidos por novidades. O contemporâneo nos seduz a tal ponto que esquecemos o passado, a história, as experiências. Um profissional, de qualquer área, com mais de 50 anos já não serve tanto assim, não fez o MBA da moda nem “entende” a verborragia cosmopolita dos novos executivos e, apesar de parecer estranho, isso também acontece com nossos fotógrafos. (Pelo menos a maioria dos que conheço.)

A câmera tem que ser a mais moderna, o processador, mais poderoso, os softwares, sempre com a última versão. Hoje um fotógrafo com seus trinta e poucos anos de idade, sabe de filme e negativo o que lhe foi transmitido por algum curso, mas pouco praticou, se é que teve essa oportunidade.

Diante de um sensor de 12 ou mais megapixels ou de lentes com sistemas de estabilização, ou ainda, da interminável quantidade de programas para tratamento de imagens que existem no mercado, pode parecer um despropósito alguém ainda se interessar por algum dos processos fotográficos históricos e saber como eram feitas as primeiras fotografias. Com certeza para aqueles que “tiram retrato” ou que fazem da fotografia uma atividade mecânica de mero registro isso não importe. Os primeiros não são profissionais e só querem a fotinha do churrasco para colocar na rede. Os segundos, mesmo que tivessem algum interesse, têm que cumprir os prazos de entrega do álbum da noiva da semana.

A fotografia tem quase duzentos anos de existência. Uma história cheia de experiências com muitos erros e acertos. O que hoje temos de mais moderno é resultado direto do que foi aprendido ao longo desse caminho.

Considerar esse conhecimento acumulado mera curiosidade, ou excentricidade de poucos, é sinal seguro de falta de costume com a cultura. Pensar que o passado não tem informações valiosas para o presente e para o  futuro é miopia intelectual.

Conhecer um pouco da história do seu ofício não custa muito, com dois ou três cliques no mouse é fácil, e se a curiosidade for grande também não é difícil, a recompensa é o prazer mágico de ver a imagem se formar diante dos olhos.

A prática da fotografia por qualquer um dos processos históricos requer paciência para reaprender algo que foi esquecido. Requer estudo e reflexão para corrigir os muitos erros que sempre acontecem. Requer, principalmente, entender e aceitar que a eletrônica e a informática são somente as mais novas ferramentas de um oficio que se faz com a luz.